Na falida Cuba, cerca de 20 presos políticos do regime ditatorial de Fidel Castro, ficaram a ver navios ao terem ajuda negada pelo presidente Lula. Um grupo de dissidentes do regime comunista pediu a Lula que interceda pela libertação de 20 presos políticos. Lula pediu respeito às determinações da Justiça cubana nos casos relacionados à detenção de opositores e comparou os presos políticos da ilha a criminosos comuns.
“Gostaria que não houvesse (a detenção de presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os deteve, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil”, acrescentou. Aí está a primeira contradição do excelentíssimo presidente. O cientista político José Augusto Guilhon de Albuquerque, da USP, bem lembrou que o apoio de Lula ao sistema judiciário cubano é incoerente com medidas tomadas por seu governo recentemente. “Lula diz que não se pode contestar as decisões da Justiça cubana, mas seu governo não se importou em contestar a Justiça da Itália, se opondo à extradição de Cesare Battisti. E se opôs à decisão da Justiça hondurenha sobre o afastamento de Manuel Zelaya”. Para Cuba vale o respeito as instituições, para Itália, Honduras e também o Brasil, as instituições são meramente figurativas sob suas determinações.

O presidente brasileiro também contestou o método usado por dissidentes cubanos para pressionar o governo: parar de se alimentar. Entre os dissidentes que fizeram o apelo está o jornalista Guillermo Fariñas, há 13 dias em greve de fome para chamar atenção para o problema. Em fevereiro, o preso político cubano Orlando Zapata Tamayo morreu após passar 85 dias em greve de fome. “Greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas”, afirmou o brasileiro. “Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação.” Lula lembrou que, quando era líder sindical, fez greve de fome contra a ditadura militar, mas classificou a prática como “insanidade”.
Além de ex-preso político, que deveria saber muito bem a diferença de um preso comum para um preso político, Lula também cometeu a “insanidade” de fazer greve de fome, durante o regime militar no Brasil. Durante sua carrerira de sindicalista e de presidente do PT, Lula apoiou várias vezes a “insanidade” de outros manifestantes que encontraram na greve de fome a última alternativa para reivindicar seus pedidos.
O blog de Edmundo Leite, do Estadão, fez uma restrospectiva muito boa sobre a antiga posição de Lula, favorável a manifestações deste tipo. Cliquem aqui, ou leiam a síntese do post, abaixo:
Ao criticar a greve de fome como forma de pressão dos opositores do regime cubano e compará-los a bandidos comuns presos no sistema carcerário o próprio presidente Lula se antecipou às objeções de que já utilizou esse recurso quando lutava contra a ditadura militar brasileira e classificou a sua antiga atitude de recorrer ao jejum para protestar como “insanidade”.

Coincidentemente, na primeira vez que cometeu um ato de insanidade como o dos atuais dissidentes cubanos, trinta anos atrás, os insatisfeitos com o regime de Fidel também eram destaque na imprensa mundial. Ao mesmo tempo em que Lula estava preso, entre abril e maio de 1980, o regime cubano enfrentava uma de suas principais crises: 10.875 cubanos invadiram a embaixada do Peru em busca de refúgio e de uma possibilidade de sair da ilha.
A crise dos dissidentes cubanos e a dos grevistas no ABC se arrastaram por longos dias. Nesse período, Lula e outros metalúrgicos presos com ele iniciaram o ato de “insanidade”. A intenção era não se alimentar até que as negociações entre patrões e empregados fossem retomadas.
30 anos depois, a se levar em conta a declaração de Lula sobre os dissidentes cubanos, é capaz até que ele reconheça que cometeu outra insanidade e que o governo Figueiredo estava certo em prendê-lo, já que sua detenção à época também tinha fundamento legal do regime vigente, assim como as determinadas atualmente pela justiça cubana.
Cinco anos depois da primeira insanidade de Lula, o Brasil saía de vez do regime ditatorial. Cuba continua na mesma até hoje. Não há registro de que Lula voltou a fazer novas greves de fome nos 17 anos que passaram do fim do regime militar brasileiro até a sua eleição em 2002. Mas, em pelo menos duas ocasiões, apoiou mais atos de insanidade.
Numa delas em 1998, quando os sequestradores do empresário Abílio Diniz iniciaram um movimento de greve de fome para forçar sua extradição do país. Apesar de serem condenados pelo crime comum que cometeram – e que de certa forma teve influência na primeira eleição presidencial disputada por Lula em 1989 - reivindicavam a condição de presos políticos.
Ficaram 46 dias em greve de fome e contaram com a ajuda de Lula, então presidente de honra do PT, que foi visitá-los no Hospital das Clínicas em São Paulo e fez gestões diretas ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Após falar com FHC por telefone, declarou à imprensa “que se Fernando Henrique demorar para decidir, vai terminar expulsando cadáveres do País”. Para o petista, na época, “só a expulsão e o indulto poderiam encerrar o caso.”
No caso dos sequestradores, a greve de fome deu certo – eles voltariam a fazer mais duas – e todos foram extraditados para o Chile e Argentina, enquanto o brasileiro foi transferido para cumprir pena em regime mais brando no Ceará. Antes de partir para a Argentina, dois sequestradores escreveram cartas de despedida para o líder do MST, João Pedro Stédile, para o então deputado federal petista José Dirceu e para Lula. Diziam que o seqüestro foi um erro político, mas que não se arrependiam.
Já presidente, Lula voltaria a se deparar com o ato de insanidade. Mas desta vez contra o seu próprio governo, em 2005, no primeiro mandato. Em protesto, contra as obras de transposição do Rio Sâo Francisco, o bispo Luís Flávio Cappio iniciu um jejum que duraria 24 dias e que o levaria para um UTI hospitalar. A posição de Lula à época em relação ao recurso do jejum não foi tão enfática como a de agora com os cubanos e chegou até a classificar o ato como grandeza.
Quando o bispo ainda estava no início do protesto, disse que a posição do bispo era compreensível. “Quando você faz greve de fome é porque tem uma forte razão”, argumentou, lembrando que ele próprio utilizou esse recurso. “O bispo tomou uma posição pessoal que eu respeito, porque eu também já tomei a decisão na minha vida de fazer greve de fome.” Para Lula, escreveu Ricardo Brandt, a “grandeza” do bispo era um dos fatores que o faziam acreditar num acordo. “Todas as pessoas que tomam a decisão de fazer greve de fome têm grandeza. Por isso estou consciente de que a gente encontrará um bom termo.”
Após mais de 20 dias, já tinha outra opinião, agora baseada na fé. Pouco antes de o bispo anunciar o fim da greve de fome, Lula disse que, como cristão, considerava essa forma de protesto contrária aos princípios da Igreja e não pode ser acolhida por um governante. “Se o Estado ceder, o Estado acaba. Espero que ele tenha juízo.”
Lembrou da greve de fome que fez com colegas metalúrgicos em 1980 na prisão. “Sei o que é greve de fome. Dá uma fome danada”, disse. “Aprendi com meus companheiros da Igreja Católica que só Deus pode dar e tirar a vida.” E cobrou posicionamento mais firme da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em relação ao caso. “Espero que a Igreja diga para ele o que disse para mim e ele cumpra os preceitos cristãos. A Igreja não se envolve em questões técnicas.”